Histórias que construíram o Departamento de Física
Um espaço permanente para registrar trajetórias, vozes e contribuições de docentes e pessoas que marcaram a história do DEFIS/UFOP.
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Conheça os perfis publicados no Painel de Memórias do DEFIS. Este espaço é ampliado periodicamente com trajetórias de docentes, técnicos, estudantes e pessoas que ajudaram a construir a história do Departamento de Física da UFOP.

Maria Auxiliadora Neves Nogueira
Primeira professora do Departamento de Física da UFOP.
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André Barros Cota
Atuação marcante no ensino, pesquisa em materiais, criação do curso e gestão na UFOP.
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O painel será ampliado periodicamente com outros docentes, técnicos, estudantes e pessoas que marcaram a história do DEFIS/UFOP.
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A primeira mulher do Departamento de Física da UFOP
Da Engenharia Metalúrgica ao pioneirismo no DEFIS: uma trajetória marcada por determinação, ensino, pesquisa e compromisso com a formação de gerações.
Da escola técnica à Engenharia Metalúrgica
Maria Auxiliadora Neves Nogueira construiu sua trajetória a partir de uma relação forte com a matemática e com a formação técnica. Ao concluir o ginásio, escolheu a escola técnica porque desejava trabalhar, conquistar independência e seguir uma formação aplicada. No antigo CEFET de Ouro Preto, atual IFMG, optou pela Metalurgia, uma das áreas disponíveis na época.
O incentivo familiar teve papel decisivo. Seu pai a estimulou a não interromper os estudos, o que a levou à Escola de Minas da UFOP. A continuidade entre a formação técnica e a graduação em Engenharia Metalúrgica defined um caminho acadêmico que, mais tarde, se desdobraria na docência e na pesquisa.
Ser mulher em um ambiente majoritariamente masculino
A entrada em cursos técnicos e de engenharia, naquele período, ocorreu em um ambiente pouco preparado para receber mulheres. A professora relata resistências institucionais, adaptações de espaços físicos e barreiras culturais que buscavam desestimular a presença feminina em áreas vistas como “rudes”.
Ao ingressar como docente em 1979, tornou-se a única mulher do Departamento de Física. Essa condição permaneceu por muitos anos, até 2008, tornando sua trajetória um marco de representatividade e persistência no DEFIS/UFOP.
O caminho até a docência
A docência surgiu como oportunidade em um contexto no qual o mercado industrial apresentava limitações significativas para mulheres. Convidada por um professor para lecionar, iniciou sua atuação no Departamento de Física em 1979. A frase recebida naquele momento — “Você aprende” — sintetiza uma entrada marcada por coragem, aprendizado contínuo e construção prática da carreira docente.
Durante décadas, consolidou uma atuação fortemente associada ao ensino, conciliando a vida acadêmica com a pós-graduação, a pesquisa e a vida familiar.
Pesquisa, ensino e contribuição científica
Pesquisa em materiais
Sua contribuição científica concentrou-se em materiais cerâmicos, difusão iônica, contornos de grão, óxido de zinco e uso de traçadores radioativos. No mestrado, investigou difusão em óxido de urânio; no doutorado, trabalhou com óxido de zinco, material de interesse para dispositivos como varistores.
Compromisso com a formação
Como professora, acompanhou transformações profundas no ensino universitário. Para ela, a formação acadêmica exige responsabilidade social: o professor não deve abrir mão da base conceitual necessária à formação de profissionais competentes.
Educação, respeito e transformação social
A professora Maria Auxiliadora defende que o conhecimento é um instrumento central de transformação individual e coletiva. Em sua visão, a educação básica ocupa posição estruturante no enfrentamento das desigualdades, e a universidade deve preservar o compromisso com a formação sólida, crítica e responsável.
Sua trajetória deixa uma mensagem direta aos estudantes: é preciso saber onde se quer chegar, reconhecer os obstáculos, contorná-los com inteligência e viver com princípios, respeito e determinação.
Entrevista
A entrevista é parte central do Painel de Memórias do DEFIS. Além da síntese biográfica, este espaço preserva a voz da pessoa homenageada, suas escolhas, obstáculos, reflexões sobre ensino e pesquisa e mensagens para as novas gerações.
Da escola técnica à Engenharia Metalúrgica
Pergunta: O que levou a senhora a escolher sua área de formação?
Maria Auxiliadora“Eu sempre gostei muito de matemática. Naquela época, ao terminar o ginásio, a gente podia escolher entre o científico ou a escola técnica. Eu queria trabalhar logo, ter independência, então fui para a escola técnica (IFMG Ouro Preto, antigo CEFET). Lá só existiam os cursos de mineração e metalurgia — e eu escolhi metalurgia.”
O apoio familiar foi determinante para que ela não interrompesse sua formação após o nível técnico. Ela recorda o incentivo do pai:
“Meu pai disse: ‘Para que parar? Aproveita que você já está no embalo’. Acho que essa foi a decisão mais importante da minha vida: não ter parado de estudar.”
Assim, a escolha seguiu de forma natural para a graduação na Escola de Minas da UFOP.
“Fiz o vestibular, passei na Escola de Minas e, na época, eram oferecidos apenas quatro cursos: Geologia, Minas, Engenharia Civil e Metalurgia. Como eu já havia cursado metalurgia na escola técnica, decidi continuar nessa área e, assim, escolhi o curso de Engenharia Metalúrgica.”
Ser mulher em um ambiente masculino
A entrada na escola técnica não foi simples. Auxiliadora recorda que fazia parte de um grupo incomum de oito mulheres, algo que gerou resistência institucional.
Maria Auxiliadora“Houve uma tentativa grande de nos desmotivar. Diziam que eram áreas muito ‘rudes’ para mulheres. Tivemos que adaptar tudo, desde espaços físicos até a convivência.”
Mesmo na universidade e posteriormente na carreira, o cenário de desigualdade persistiu de forma marcante.
“Quando comecei a dar aula, em 1979, eu era a única mulher no departamento, e isso continuou por muitos anos. Hoje a gente vê mais mulheres, mas naquela época era uma realidade bem diferente.”
Ela relembra também as dificuldades no mercado de trabalho:
“Ser mulher na área de produção era praticamente impossível. Em entrevistas, ouvi coisas absurdas, como preocupações com a vida pessoal em vez da minha capacidade.”
Apesar disso, destaca a importância da persistência:
“Querer é poder. Nem sempre você vai conseguir, porque existem obstáculos, mas você aprende a contornar. O confronto não leva a nada, você perde energia.”
O caminho até a docência
Diante das dificuldades no setor industrial, surgiu a oportunidade de seguir na universidade.
Pergunta: Como foi sua chegada à docência?
Maria Auxiliadora“Um professor me convidou para dar aula. Eu disse que nunca tinha feito isso, e ele respondeu: ‘Você aprende’. E foi assim que comecei, em 1979.”
Ao longo de décadas, consolidou sua trajetória em um ambiente majoritariamente masculino, sendo por muitos anos a única mulher no DEFIS, o que reforça o caráter pioneiro de sua atuação.
A carreira docente se desenvolveu inicialmente com forte foco no ensino, e a pós-graduação veio mais tarde, conciliada com a rotina intensa de aulas e vida familiar.
Pesquisa e contribuição científica
Sua atuação científica se consolidou na área de materiais cerâmicos e técnicas nucleares aplicadas.
Maria Auxiliadora“Trabalhei com difusão em materiais, utilizando radioisótopos como traçadores. No mestrado, estudei difusão em óxido de urânio; no doutorado, em óxido de zinco, ligado a dispositivos como varistores.”
A criação de infraestrutura de pesquisa em Ouro Preto foi fundamental:
“Antes, eu dependia de laboratórios externos. Depois, com os laboratórios aqui (UFOP), tudo ficou mais viável.”
Ensino, desafios e compromisso
Ao longo de décadas, a professora acompanhou transformações no ensino e enfrentou desafios como turmas numerosas e altos índices de reprovação.
Maria Auxiliadora“Nenhum professor gosta de reprovar. Mas temos responsabilidade social. Não podemos formar profissionais sem base.”
Ela também chama atenção para a importância do protagonismo estudantil:
“O aluno precisa ir atrás, reconhecer suas dificuldades. Estudar não é fácil, exige foco e disciplina.”
Mulheres na Física: conquista e representatividade
Ao comentar a presença feminina nas ciências, Auxiliadora reconhece avanços, mas enfatiza a necessidade de postura ativa, algo que ela própria precisou exercer ao longo de décadas como única mulher no departamento.
Maria Auxiliadora“Vocês não devem se colocar como minoria sem voz. É uma minoria que pode ser representativa. O espaço precisa ser ocupado.”
Para ela, o respeito é central:
“O respeito se conquista. E é a base de qualquer convivência.”
Sobre racismo, igualdade e educação
A professora também compartilha sua visão sobre desigualdade racial e social.
Maria Auxiliadora“O problema do racismo é de quem é racista, não meu. A cor da pele nunca foi um fator limitante para mim.”
Ela defende que o conhecimento é o principal instrumento de transformação:
“A única coisa que ninguém pode tirar de você é o conhecimento.”
E reforça a importância de políticas estruturais:
“Precisamos agir na base, na educação básica. Sem isso, não resolvemos o problema na origem.”
Lições de uma trajetória
Ao final, sua mensagem é direta e prática.
Maria Auxiliadora“Você tem que saber onde quer chegar. Vai encontrar obstáculos, mas precisa contornar. A vida é sua — viva com princípios, respeito e determinação.”
A trajetória e os ensinamentos de Maria Auxiliadora Neves Nogueira deixam um legado que ultrapassa a sala de aula e os laboratórios. Seu relato evidencia que caminhos na ciência são construídos com determinação, ética e clareza de propósito, mesmo diante de desafios estruturais.
Linha do tempo
Graduação em Engenharia Metalúrgica
Formação pela Universidade Federal de Ouro Preto, em continuidade à trajetória iniciada na escola técnica.
Ingresso no DEFIS/UFOP
Início da atuação como a primeira professora docente do Departamento de Física.
Aposentadoria
Conclusão de cerca de 38 anos de dedicação ao ensino, à pesquisa e à formação de gerações no DEFIS.

Da Metalurgia à Física: a consolidação do DEFIS
Compromisso com o ensino, a pesquisa em Ciência dos Materiais, a gestão universitária e a criação do curso de Física na UFOP ao longo de mais de 35 anos.
Trajetória acadêmica e a interface com os materiais
Ao longo de mais de três décadas na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), o professor André Barros Cota construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com o ensino, a pesquisa, a formação de recursos humanos e a consolidação institucional do Departamento de Física (DEFIS).
Engenheiro Metalurgista formado pela Escola de Minas da UFOP, mestre em Física pelo Instituto de Física de São Carlos (USP) e doutor em Engenharia Metalúrgica e de Minas pela UFMG, realizou ainda estágio pós-doutoral (período sabático) na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Embora sua formação tenha se desenvolvido na interface entre a Física e a Engenharia de Materiais, permaneceu durante toda a carreira como docente do DEFIS/UFOP.
Contribuição para o ensino, pesquisa e gestão universitária
Professor do DEFIS a partir de agosto de 1982, participou ativamente da criação do curso de Física Aplicada (posteriormente denominado Física, com ênfase em Ciência dos Materiais), atuou como presidente do colegiado do curso, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Materiais (REDEMAT) e exerceu por oito anos os cargos de Pró-Reitor Adjunto e Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFOP.
Pesquisa e Formação
Orientou dezenas de estudantes de graduação e pós-graduação, desenvolvendo pesquisas sobre a relação entre estrutura, processamento e propriedades de materiais metálicos, especialmente ligas metálicas e aços.
Democratização do Conhecimento
Após a aposentadoria em 2018, dedicou-se à escrita de livros didáticos digitais de acesso gratuito na área de Ciência dos Materiais, reafirmando que o conhecimento pertence à humanidade.
Entrevista
Concedida aos estudantes Ana Luisa Barbosa Martins e Lucas de Paula Silva, do curso de Física e membros do Diretório Acadêmico do DEFIS, a entrevista resgata memórias da criação do departamento, desafios da pesquisa e conselhos valiosos para os futuros cientistas.
"Meu interesse pela Física nasceu enquanto eu ainda era monitor"
Como surgiu seu interesse pela ciência? Houve alguma experiência que despertou seu interesse pela Física e pelos Materiais?
André Barros Cota“Minha história começou em Alvinópolis-MG, onde fiz parte do ensino fundamental, concluindo os estudos em Ouro Preto. Depois ingressei no curso técnico em Metalurgia no CEFET de Ouro Preto (atual IFMG) e, naturalmente, segui para a Engenharia Metalúrgica na Escola de Minas da UFOP.”
Durante a graduação, um evento foi decisivo para sua definição profissional:
“Do terceiro ao nono período fui monitor das disciplinas de Física. Foi justamente nesse período que descobri meu interesse pela área. A Ciência dos Materiais já fazia parte da minha formação desde o curso técnico, mas foi convivendo diariamente com o ensino de Física que percebi que queria seguir esse caminho. Assim que me formei em Engenharia Metalúrgica, tornei-me professor do Departamento de Física, mantendo sempre essa interface entre Física e Materiais.”
"A Física oferecia exatamente a ponte que eu buscava"
Como aconteceu a transição da Engenharia Metalúrgica para a Física Aplicada?
André Barros Cota“Quando comecei a lecionar no Departamento de Física, minha formação ainda era exclusivamente em Engenharia. Posteriormente fiz o mestrado em Física no Instituto de Física de São Carlos, orientado pela professora Ivone Mascarenhas, trabalhando na área de Cristalografia.”
“Depois realizei o doutorado em Metalurgia Física, uma área extremamente interdisciplinar, que exige sólida formação em Física para compreender os fenômenos envolvidos. Mais tarde ainda realizei meu estágio pós-doutoral na Universidade de Cambridge, também nessa área. Apesar dessa formação multidisciplinar, permaneci toda minha carreira no Departamento de Física, porque era ali que me sentia realizado como professor.”
"Aos 22 anos eu era o professor mais novo da sala"
Como foi sua primeira experiência em sala de aula?
André Barros Cota“Tornei-me professor apenas um mês após concluir a graduação. Formei-me em julho de 1982 e fui contratado em 10 de agosto daquele mesmo ano. Eu tinha apenas 22 anos de idade.”
“Na minha primeira turma, praticamente todos os estudantes eram da minha geração, tendo idades próximas ou até superiores à minha, pois havia muitos repetentes e, naquela época, era comum que diversos alunos ingressassem na universidade em idade mais avançada do que a que hoje se observa. Lecionava disciplinas para Engenharia, inicialmente Óptica Geométrica, que então era uma disciplina completa de 90 horas e posteriormente Mecânica, Eletromagnetismo, Ondas e outras disciplinas da Física básica. Em cada semestre chegava a atender cerca de 150 a 170 estudantes.”
"Sempre procurei compreender como a estrutura modifica as propriedades dos materiais"
Como o senhor explicaria sua área de pesquisa?
André Barros Cota“Minha pesquisa sempre teve um objetivo muito claro: compreender como a estrutura dos materiais determina suas propriedades físicas e mecânicas, com ênfase no estudo da cinética das transformações de fases, da textura cristalográfica, das propriedades magnéticas e da relação entre microestrutura e comportamento mecânico.”
“Grande parte dos meus trabalhos foi dedicada ao estudo das ligas metálicas, especialmente dos aços. Buscávamos entender como alterações na composição química ou tratamentos térmicos aplicados a esses materiais modificavam a sua estrutura e, consequentemente, as suas propriedades, bem como o seu desempenho em aplicações industriais. O foco sempre foi produzir conhecimento capaz de melhorar o desempenho dos materiais utilizados pela indústria.”
"Os melhores resultados foram aqueles que também formaram pessoas"
Houve algum trabalho que marcou especialmente sua carreira?
André Barros Cota“Prefiro não destacar apenas uma pesquisa. Ao longo da minha carreira, desenvolvi diversos trabalhos em parceria com empresas, principalmente com o Centro de Pesquisa da Aperam South America, cujos resultados, em alguns casos, foram incorporados ao processo produtivo.”
“Também tive orientações muito marcantes. Um exemplo foi o trabalho desenvolvido por Fernando Lucas, da primeira turma do curso de Física, cuja dissertação continua sendo bastante citada até hoje. Mas talvez a maior satisfação tenha sido acompanhar o crescimento de alunos que chegaram à universidade com muitas dificuldades e se tornaram excelentes profissionais. Lembro particularmente de um ex-aluno que me procurou anos depois apenas para agradecer, dizendo que, se havia conquistado sua carreira, parte desse resultado devia ao incentivo recebido durante o mestrado. Esses momentos mostram que formar pessoas é tão importante quanto produzir artigos científicos.”
"No início praticamente não existia infraestrutura para pesquisa"
Como era fazer pesquisa quando iniciou sua carreira na UFOP?
André Barros Cota“Quando o Departamento de Física foi criado, em 1982, praticamente não existiam laboratórios de pesquisa. Havia excelentes laboratórios de ensino, mas nenhum equipamento que permitisse desenvolver pesquisas experimentais de maior porte.”
“Com o passar dos anos, graças aos investimentos da CAPES, FINEP e outras agências de fomento, começamos a adquirir microscópios, dilatômetros, microscópio eletrônico de varredura e diversos outros equipamentos. Mesmo assim, a pesquisa sempre dependeu muito da colaboração. Grande parte dos meus projetos foi desenvolvida em parceria com pesquisadores de outras instituições. Entre essas colaborações, duas foram particularmente importantes: a estabelecida com o Centro de Pesquisa da Aperam South America e a mantida com o CETEC, por meio dos laboratórios parceiros vinculados à REDEMAT. Pesquisa científica exige equipamentos, insumos e colaboração. Nada acontece de forma imediata.”
"Escolhi a universidade pela realização pessoal"
Em algum momento pensou em seguir outro caminho profissional?
André Barros Cota“Quando me formei recebi convite para trabalhar em uma siderúrgica. Financeiramente seria uma opção muito melhor. Mesmo assim escolhi permanecer na UFOP. Minha decisão foi baseada muito mais na satisfação pessoal de ser professor do que em qualquer aspecto financeiro.”
“Durante toda minha carreira também recebi convites para migrar para o Departamento de Engenharia Metalúrgica, mas sempre preferi permanecer no Departamento de Física.”
"Participar da criação do curso de Física foi uma das maiores realizações"
Como foi sua participação na criação do curso de Física da UFOP?
André Barros Cota“O projeto começou a ser discutido no final da década de 1990. Participei diretamente da elaboração e revisão da primeira proposta curricular, principalmente das disciplinas voltadas à interface entre Física e Ciência dos Materiais. Depois, fui o segundo presidente do Colegiado do Curso, acompanhando a sua implantação e, posteriormente, o processo de reconhecimento pelo MEC. Foi um trabalho coletivo que envolveu diversos professores do Departamento.”
“Também tivemos grande apoio na aquisição de equipamentos de ensino, especialmente pelos projetos coordenados pelo professor Djalma. Hoje é muito gratificante observar onde estão nossos primeiros alunos: professores em universidades brasileiras e estrangeiras, pesquisadores e profissionais atuando em diferentes setores.”
"Um departamento cresce quando seus professores vivem o departamento"
O que ainda espera para o futuro do DEFIS?
André Barros Cota“Sempre acreditei que um departamento não cresce apenas por causa da infraestrutura. Ele cresce por causa das pessoas. Durante toda minha carreira permaneci diariamente no departamento, com a porta do gabinete aberta. Esperava que essa convivência diária entre os docentes fortalecesse ainda mais o ambiente acadêmico. Ainda considero fundamental que os professores estejam presentes, conversem, compartilhem ideias e participem ativamente da vida institucional. É assim que um departamento evolui.”
"Walter Dornelas foi um dos grandes professores que conheci"
Existe alguém cuja contribuição merece ser lembrada?
André Barros Cota“Sem dúvida o professor Walter Arcanjo Dornelas. Foi meu professor durante a graduação. Era engenheiro metalurgista, doutor em Metalurgia Física, mas dedicou toda sua vida ao ensino da Física. Possuía uma didática extraordinária e valorizava profundamente as atividades experimentais. Sempre fazia questão de relacionar teoria e prática para facilitar o aprendizado dos estudantes. Foi uma figura marcante na história do Departamento de Física.”
"Também servi à universidade na gestão"
Além da docência e da pesquisa, André Barros Cota exerceu importantes funções administrativas.
Foi presidente do Colegiado do Curso de Física, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Materiais (REDEMAT) e, posteriormente, Pró-Reitor Adjunto e Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFOP durante oito anos.
Segundo ele, esses cargos representaram uma oportunidade de contribuir para o fortalecimento institucional da universidade e para a consolidação da pesquisa científica na UFOP.
"Conhecimento pertence à humanidade"
Após aposentar-se em 2018, decidiu dedicar-se integralmente à escrita de livros didáticos.
Publicou três obras na área de Ciência dos Materiais, todas disponibilizadas gratuitamente em formato digital: Termodinâmica de Materiais, Transformações de Fases em Materiais e Tratamentos Térmicos: Fundamentos e Aplicações em Metais e Ligas.
Seu objetivo sempre foi democratizar o acesso ao conhecimento. Como afirma:
André Barros Cota"O conhecimento pertence à humanidade. Quanto mais pessoas tiverem acesso a ele, maior será nossa capacidade de reduzir desigualdades por meio da educação."
As três obras mencionadas encontram-se disponibilizadas também na página do Departamento de Física.
"Deixem de ser alunos e tornem-se estudantes"
O professor encerra a entrevista com uma reflexão que resume sua visão sobre a formação universitária.
Segundo ele, o maior desafio dos discentes não é a falta de informação. Nunca houve tanta disponibilidade de livros, artigos científicos, vídeos, cursos e outros recursos de aprendizagem. O verdadeiro desafio consiste em transformar essa abundância de informações em aprendizado consistente. Para isso, é fundamental que os discentes desenvolvam o hábito de estudar de forma sistemática, com disciplina e dedicação.
Embora reconheça a importância da inteligência artificial como ferramenta de apoio, alerta que ela jamais substitui o conhecimento construído pelo próprio estudante.
Que conselho deixaria aos estudantes que estão iniciando sua trajetória acadêmica?
André Barros Cota“Quem não tem base não consegue avaliar se a resposta produzida por uma inteligência artificial está correta. Só sabe utilizar bem essas ferramentas quem realmente estudou.”
Para ele, estudar continua sendo a única forma de construir um conhecimento sólido.
“Deixem de ser apenas alunos e tornem-se estudantes. Estudar exige dedicação, disciplina e curiosidade. Ninguém aprende sem estudar. A Física oferece uma base extraordinária para compreender o mundo e abre inúmeras possibilidades profissionais. Aproveitem essa oportunidade.”
A trajetória de André Barros Cota se confunde com a própria história do Departamento de Física da UFOP. Sua carreira evidencia que o legado de um docente vai muito além da produção científica: está na formação de pessoas, na construção das instituições e na inspiração deixada para as novas gerações.
Linha do tempo
Ingresso como Docente no DEFIS/UFOP
Contratado em agosto de 1982, um mês após se formar na Engenharia Metalúrgica da UFOP, iniciando sua docência aos 22 anos.
Criação do Curso de Física
Atuação direta na proposta curricular, consolidação da interface com Ciência dos Materiais e segundo presidente do Colegiado do Curso.
Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação
Atuação por oito anos como Pró-Reitor Adjunto e Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFOP, além de coordenar a REDEMAT.
Aposentadoria e Escrita Didática
Aposentadoria após mais de três décadas de dedicação e transição para a produção digital de livros didáticos gratuitos.
Preservando a história do DEFIS
O Painel de Memórias é um espaço permanente. Novos perfis de docentes, técnicos e colaboradores serão adicionados periodicamente para documentar o legado coletivo do departamento.
