Histórias que construíram o Departamento de Física
Um espaço permanente para registrar trajetórias, vozes e contribuições de docentes e pessoas que marcaram a história do DEFIS/UFOP.
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Conheça o primeiro perfil publicado no Painel de Memórias do DEFIS. Este espaço será ampliado periodicamente com novas trajetórias de docentes, técnicos, estudantes e pessoas que ajudaram a construir a história do Departamento de Física da UFOP.

Maria Auxiliadora Neves Nogueira
Primeira professora do Departamento de Física da UFOP.
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O painel será ampliado periodicamente com outros docentes, técnicos, estudantes e pessoas que marcaram a história do DEFIS/UFOP.
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A primeira mulher do Departamento de Física da UFOP
Da Engenharia Metalúrgica ao pioneirismo no DEFIS: uma trajetória marcada por determinação, ensino, pesquisa e compromisso com a formação de gerações.
Da escola técnica à Engenharia Metalúrgica
Maria Auxiliadora Neves Nogueira construiu sua trajetória a partir de uma relação forte com a matemática e com a formação técnica. Ao concluir o ginásio, escolheu a escola técnica porque desejava trabalhar, conquistar independência e seguir uma formação aplicada. No antigo CEFET de Ouro Preto, atual IFMG, optou pela Metalurgia, uma das áreas disponíveis na época.
O incentivo familiar teve papel decisivo. Seu pai a estimulou a não interromper os estudos, o que a levou à Escola de Minas da UFOP. A continuidade entre a formação técnica e a graduação em Engenharia Metalúrgica definiu um caminho acadêmico que, mais tarde, se desdobraria na docência e na pesquisa.
Ser mulher em um ambiente majoritariamente masculino
A entrada em cursos técnicos e de engenharia, naquele período, ocorreu em um ambiente pouco preparado para receber mulheres. A professora relata resistências institucionais, adaptações de espaços físicos e barreiras culturais que buscavam desestimular a presença feminina em áreas vistas como “rudes”.
Ao ingressar como docente em 1979, tornou-se a única mulher do Departamento de Física. Essa condição permaneceu por muitos anos, até 2008, tornando sua trajetória um marco de representatividade e persistência no DEFIS/UFOP.
O caminho até a docência
A docência surgiu como oportunidade em um contexto no qual o mercado industrial apresentava limitações significativas para mulheres. Convidada por um professor para lecionar, iniciou sua atuação no Departamento de Física em 1979. A frase recebida naquele momento — “Você aprende” — sintetiza uma entrada marcada por coragem, aprendizado contínuo e construção prática da carreira docente.
Durante décadas, consolidou uma atuação fortemente associada ao ensino, conciliando a vida acadêmica com a pós-graduação, a pesquisa e a vida familiar.
Pesquisa, ensino e contribuição científica
Pesquisa em materiais
Sua contribuição científica concentrou-se em materiais cerâmicos, difusão iônica, contornos de grão, óxido de zinco e uso de traçadores radioativos. No mestrado, investigou difusão em óxido de urânio; no doutorado, trabalhou com óxido de zinco, material de interesse para dispositivos como varistores.
Compromisso com a formação
Como professora, acompanhou transformações profundas no ensino universitário. Para ela, a formação acadêmica exige responsabilidade social: o professor não deve abrir mão da base conceitual necessária à formação de profissionais competentes.
Educação, respeito e transformação social
A professora Maria Auxiliadora defende que o conhecimento é um instrumento central de transformação individual e coletiva. Em sua visão, a educação básica ocupa posição estruturante no enfrentamento das desigualdades, e a universidade deve preservar o compromisso com a formação sólida, crítica e responsável.
Sua trajetória deixa uma mensagem direta aos estudantes: é preciso saber onde se quer chegar, reconhecer os obstáculos, contorná-los com inteligência e viver com princípios, respeito e determinação.
Entrevista
A entrevista é parte central do Painel de Memórias do DEFIS. Além da síntese biográfica, este espaço preserva a voz da pessoa homenageada, suas escolhas, obstáculos, reflexões sobre ensino e pesquisa e mensagens para as novas gerações.
Da escola técnica à Engenharia Metalúrgica
Pergunta: O que levou a senhora a escolher sua área de formação?
Maria Auxiliadora“Eu sempre gostei muito de matemática. Naquela época, ao terminar o ginásio, a gente podia escolher entre o científico ou a escola técnica. Eu queria trabalhar logo, ter independência, então fui para a escola técnica (IFMG Ouro Preto, antigo CEFET). Lá só existiam os cursos de mineração e metalurgia — e eu escolhi metalurgia.”
O apoio familiar foi determinante para que ela não interrompesse sua formação após o nível técnico. Ela recorda o incentivo do pai:
“Meu pai disse: ‘Para que parar? Aproveita que você já está no embalo’. Acho que essa foi a decisão mais importante da minha vida: não ter parado de estudar.”
Assim, a escolha seguiu de forma natural para a graduação na Escola de Minas da UFOP.
“Fiz o vestibular, passei na Escola de Minas e, na época, eram oferecidos apenas quatro cursos: Geologia, Minas, Engenharia Civil e Metalurgia. Como eu já havia cursado metalurgia na escola técnica, decidi continuar nessa área e, assim, escolhi o curso de Engenharia Metalúrgica.”
Ser mulher em um ambiente masculino
A entrada na escola técnica não foi simples. Auxiliadora recorda que fazia parte de um grupo incomum de oito mulheres, algo que gerou resistência institucional.
Maria Auxiliadora“Houve uma tentativa grande de nos desmotivar. Diziam que eram áreas muito ‘rudes’ para mulheres. Tivemos que adaptar tudo, desde espaços físicos até a convivência.”
Mesmo na universidade e posteriormente na carreira, o cenário de desigualdade persistiu de forma marcante.
“Quando comecei a dar aula, em 1979, eu era a única mulher no departamento, e isso continuou por muitos anos. Hoje a gente vê mais mulheres, mas naquela época era uma realidade bem diferente.”
Ela relembra também as dificuldades no mercado de trabalho:
“Ser mulher na área de produção era praticamente impossível. Em entrevistas, ouvi coisas absurdas, como preocupações com a vida pessoal em vez da minha capacidade.”
Apesar disso, destaca a importância da persistência:
“Querer é poder. Nem sempre você vai conseguir, porque existem obstáculos, mas você aprende a contornar. O confronto não leva a nada, você perde energia.”
O caminho até a docência
Diante das dificuldades no setor industrial, surgiu a oportunidade de seguir na universidade.
Pergunta: Como foi sua chegada à docência?
Maria Auxiliadora“Um professor me convidou para dar aula. Eu disse que nunca tinha feito isso, e ele respondeu: ‘Você aprende’. E foi assim que comecei, em 1979.”
Ao longo de décadas, consolidou sua trajetória em um ambiente majoritariamente masculino, sendo por muitos anos a única mulher no DEFIS, o que reforça o caráter pioneiro de sua atuação.
A carreira docente se desenvolveu inicialmente com forte foco no ensino, e a pós-graduação veio mais tarde, conciliada com a rotina intensa de aulas e vida familiar.
Pesquisa e contribuição científica
Sua atuação científica se consolidou na área de materiais cerâmicos e técnicas nucleares aplicadas.
Maria Auxiliadora“Trabalhei com difusão em materiais, utilizando radioisótopos como traçadores. No mestrado, estudei difusão em óxido de urânio; no doutorado, em óxido de zinco, ligado a dispositivos como varistores.”
A criação de infraestrutura de pesquisa em Ouro Preto foi fundamental:
“Antes, eu dependia de laboratórios externos. Depois, com os laboratórios aqui (UFOP), tudo ficou mais viável.”
Ensino, desafios e compromisso
Ao longo de décadas, a professora acompanhou transformações no ensino e enfrentou desafios como turmas numerosas e altos índices de reprovação.
Maria Auxiliadora“Nenhum professor gosta de reprovar. Mas temos responsabilidade social. Não podemos formar profissionais sem base.”
Ela também chama atenção para a importância do protagonismo estudantil:
“O aluno precisa ir atrás, reconhecer suas dificuldades. Estudar não é fácil, exige foco e disciplina.”
Mulheres na Física: conquista e representatividade
Ao comentar a presença feminina nas ciências, Auxiliadora reconhece avanços, mas enfatiza a necessidade de postura ativa, algo que ela própria precisou exercer ao longo de décadas como única mulher no departamento.
Maria Auxiliadora“Vocês não devem se colocar como minoria sem voz. É uma minoria que pode ser representativa. O espaço precisa ser ocupado.”
Para ela, o respeito é central:
“O respeito se conquista. E é a base de qualquer convivência.”
Sobre racismo, igualdade e educação
A professora também compartilha sua visão sobre desigualdade racial e social.
Maria Auxiliadora“O problema do racismo é de quem é racista, não meu. A cor da pele nunca foi um fator limitante para mim.”
Ela defende que o conhecimento é o principal instrumento de transformação:
“A única coisa que ninguém pode tirar de você é o conhecimento.”
E reforça a importância de políticas estruturais:
“Precisamos agir na base, na educação básica. Sem isso, não resolvemos o problema na origem.”
Lições de uma trajetória
Ao final, sua mensagem é direta e prática.
Maria Auxiliadora“Você tem que saber onde quer chegar. Vai encontrar obstáculos, mas precisa contornar. A vida é sua — viva com princípios, respeito e determinação.”
A trajetória e os ensinamentos de Maria Auxiliadora Neves Nogueira deixam um legado que ultrapassa a sala de aula e os laboratórios. Seu relato evidencia que caminhos na ciência são construídos com determinação, ética e clareza de propósito, mesmo diante de desafios estruturais.
Linha do tempo
Graduação em Engenharia Metalúrgica
Formação pela Universidade Federal de Ouro Preto, em continuidade à trajetória iniciada na escola técnica.
Ingresso no Departamento de Física
Início da carreira docente no DEFIS/UFOP, tornando-se a primeira professora do departamento.
Mestrado em Ciências Técnicas Nucleares
Formação pela Universidade Federal de Minas Gerais, com estudos envolvendo difusão em materiais e técnicas nucleares.
Doutorado em Engenharia de Materiais
Pesquisa desenvolvida na UFOP, com ênfase em óxido de zinco e materiais cerâmicos.
Fim de um ciclo de isolamento de gênero no DEFIS
Até esse período, permaneceu como única mulher docente no Departamento de Física, evidenciando a dimensão histórica de sua presença.
Um painel em construção permanente
O Painel de Memórias do DEFIS foi pensado como um espaço vivo. Novos perfis poderão ser incorporados periodicamente, preservando relatos, fotografias, documentos, entrevistas e contribuições de docentes, técnicos, estudantes e pessoas que ajudaram a construir a história do Departamento de Física da UFOP.
